26.5.10

"Às vezes ainda caio na armadilha do teu charme, vou jantar contigo como quem vai ao cinema com um velho amigo e quando me levanto da mesa depois de duas horas de êxtase, demoro três semanas a descer outra vez à terra.
O meu pai sempre me disse que o maior perigo do mundo não são as guerras nem os ditadores, nem sequer as catástrofes naturais, mas as mulheres com as suas peles de seda, o olhar vítreo a pedir protecção, as bocas de desejo e as curvas infinitas no corpo que despistam os homens, os deixam sem norte nem direcção e lhe estragam a vida.
E tu és o pior de todos. Apareces e desapareces como uma bruxa e ris-te do meu amor louco e desajeitado por ti como se eu fosse um cão e tu o gato que me toureia e atormenta. E eu sinto-me uma cachorra, uma palerma, uma fraca, uma idiota cada vez que te vais embora e me castigas com semanas a fio de silêncio, cerro os punhos, olho-me ao espelho (...) e sinto que não sou nada nem ninguém enquanto não me esquecer de ti.
Tu entras sempre antes de mim, olhas em volta como quem visita a casota de um cão, fazes um ar de dó que me faz sentir uma verme e depois deitas-te comigo porque te dou pena, porque te apetece ter sexo, porque sabes que ao menos em mim podes confiar (...)
Daqui a dois ou três meses tu vais voltar, voltas sempre porque mesmo sem teres terra sabes que é aqui o teu canto e eu sonho com o dia em que te vais cansar de provocar orgasmos por noite e te decidas a ficar ao meu lado.
(...) Demora o tempo que quiseres, que eu por cá me aguento, entre mortos e feridos, atrás das trincheiras do meu coração de cão fraco e tonto."
 
Margarida Rebelo Pinto, in Estado de sítio. Adaptado

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